quarta-feira, 14 de junho de 2017

Corpus Christi:
Fé combativa no Santíssimo Sacramento

Procissão de Corpus Christi, La Orotava, Canárias, Espanha.
Procissão de Corpus Christi, La Orotava, Canárias, Espanha.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O Corpus Christi é a festa católica que glorifica especialmente a presença de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. A festa da instituição do Santíssimo Sacramento é na Quinta-feira Santa, na Última Ceia.

Mas a Igreja percebeu a necessidade da comemorar separadamente o Corpus Christi.

E essa festa vem sendo acompanhada de graças tão insignes, e assim o será até o fim dos tempos em que num dia glorioso mais desditado será comemorada pela última vez antes do fim do mundo.

Protestantes e hereges negam a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Esse é um dos piores escândalos da história.

Os medievais tinham uma profunda fé na presença real, que dizer que Nosso Senhor Jesus Cristo está presente verdadeira e substancialmente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade nas espécies consagradas pelo sacerdote na Missa.

Portanto, é uma devoção enorme à Santa Missa e à adoração do Santíssimo Sacramento.

Lutero e os protestantes, hoje também os progressistas, negam boçalmente a presença real.

Essa negação foi um dos pontos de fratura dos protestantes que os católicos receberam como um dos piores ultrajes jamais feitos contra Nosso Senhor.

Qual foi a tática pastoral usada pela Igreja em face dessa negação?



A Igreja teria podido dizer:

Ostensório: objeto litúrgico
para expor dignamente o Corpo de Cristo
“bem, nossos irmãos separados protestantes estão negando a presença real. Se nós vamos afirmar protuberantemente a presença real, nós aumentamos a separação. Como eles não querem saber de nenhum modo desse dogma, vale a pena então nós repensarmos o dogma da presença real.

“E tomando em consideração que os tempos mudaram, era muito natural que nós agora exprimíssemos a presença real num vocabulário diferente que agradasse aos protestantes.

“Não seria uma negação da presença real. Isto jamais! É um dogma definido por Nosso Senhor Jesus Cristo e, por causa disto, não vamos nos dizer contrários a esse dogma.

“Mas em vez de afirma-lo tão afirmativamente poderíamos dizer que Deus está presente por toda parte. Os bons amigos protestantes podem achar que Deus está presente ali, como também numa flor ou num pão qualquer.

“Nós entendemos que não é. Que Ele está realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, mas não vamos dizer isto para não criar uma cisão.

“Vamos usar um termo confuso, equívoco e assim eles ficam conosco.

“Depois, vamos começar o diálogo. No diálogo, diremos para eles: fulano, que tal seria se nós reestudássemos os fundamentos do dogma da presença real?

“Que tal verificamos juntos até que ponto esse dogma tem ou não seu fundamento da Sagrada Escritura?”

O protestante diria: “a sua dúvida é irmã da minha. E eu tenho vontade de re-pesquisar o assunto, como você tem também”.

Então, começa uma conversa a respeito do Santíssimo Sacramento em que o católico insincero diz: “olha, poderíamos chegar a um acordo, a uma terceira posição.

“Que não é inteiramente uma coisa nem inteiramente outra. Você cede um pouco, eu cedo um pouco. E afirmaremos juntos que Jesus Cristo está presente de fato na Eucaristia.

“Agora, se Ele está presente apenas enquanto Deus, ou enquanto Homem-Deus é um pormenor a respeito do qual cada um de nós reclama sua liberdade de posição. Então, nós teremos chegado finalmente a uma síntese”.

Desta forma poderia se ter evitado a ruptura entre protestantes e católicos.

Satanás, se tivesse que fazer uso da palavra, com mais inteligência e com mais charme, teria dito mais ou menos a mesma coisa.

Mas os santos, os teólogos e os papas seguiram uma política inteiramente diversa.

Procissão de Corpus Christi em Toledo, Espanha.

Eles pensaram que a Igreja Católica foi instituída por Jesus Cristo para ensinar a verdade.

E Ela não tem o direito de dar um ensinamento confuso porque o ensinamento confuso não é um ensinamento digno desse nome.

Ainda que seja involuntariamente, que seja por incompetência, ele não é digno. Porque a clareza é a primeira das qualidades do mestre.

O ensino exige, como pressuposto, a clareza.

Depois, exige a categoria do conteúdo. Um homem pode ser sábio e não ser claro.

Mas um professor confuso não pode ser professor. É mais ou menos como um homem que fabrica óculos com um cristal excelente e uma montagem muito boa.

Só que usa cristais um pouco embaçados: é uma porcaria! Pode ser o que for, é uma porcaria! Porque se não dá para ver com clareza, é uma porcaria!

Se o mestre intencionalmente não ensina com clareza, ele é pior do que um incompetente: ele é um desonesto.

Procissão de Corpus Christi na Itália.
Procissão de Corpus Christi na Itália.
Porque é uma desonestidade, é uma fraude, apresentar-se alguém com a segunda intenção de não lhe dar a verdade inteira.

Se aqueles grandes teólogos e Doutores, e a Igreja pela voz de seus Papas fizessem o silêncio a esse respeito, os fiéis receberiam um ensinamento confuso sobre uma verdade indispensável à salvação.

Então, eles estariam fraudando os fiéis e faltando com a sua missão.

Em segundo lugar, se a Igreja, fosse silenciar a respeito da Eucaristia, faria que os fiéis comungassem mal. Porque não tendo o ensinamento claro, não podiam receber bem o que eles estavam recebendo.

Quer dizer, na primeira hipótese a Igreja sacrificaria a vida espiritual de seus fiéis para manter uma unidade pútrida.

A força de toda instituição consiste em levar seus próprios princípios às últimas consequências. A partir do momento em que ela acha que tem que adoçar os seus princípios para sobreviver, ela reconhece que já morreu.

A partir do momento em que um Ministro da Guerra dissesse: “o Brasil é um país ao qual repugna tanto o estado militar que, ou o militar toma ares de civil, ou não haverá mais militares”.

Não adianta mais o militar tomar ares de civil. Porque, se repugna tanto a coerência do estado militar é preciso reconhecer de frente que o estado militar morreu. Não vale a pena entrar com voltas.

Vocações clericais: um padre deve ser, pensar, se vestir e viver como padre. Se alguém vem e diz: “bem, então, não haverá mais padres no Brasil”. A resposta só pode ser: “não adianta pôr padre de macacão para ver se alguém quer ficar padre”.

Se o país não quer ter mais padres, é porque ficou pagão. Vamos tomar a questão de frente.

Sobre a instituição da família: alguém poderá dizer: “bem, se não se fizer o divórcio, no Brasil muita gente começa a não se casar mais e a viver no amor-livre”.

A resposta é: então diga que morreu a instituição da família no Brasil. Não vale a pena fazer uma famélica, moribundinha, caricatura abastardada daquilo que deve ser, mas diga logo de uma vez: morreu a família.


Na festa de Corpus Christi: o hino Pange Lingua

Então, vamos logo dizer: morreu o Brasil. Porque um país onde não há compreensão para o estado militar, para o estado eclesiástico e nem apreço pela família, isso é um país morto.

Eu estou falando do Brasil, porque eu estou no Brasil. Eu poderia, a igual título, falar de qualquer outro país onde me encontrasse. É um exemplo hipotético que eu estou tomando.

Foi a política da honestidade, da lealdade, da integridade, da coerência.

Então, os padres do Concílio de Trento entenderam que era preciso fazer o contrário da posição dialogante.

Em oposição ao protestantismo, acentuaram o culto do Santíssimo Sacramento, instituíram uma festa para a adoração do Santíssimo Sacramento e uma procissão em que o Santíssimo Sacramento sai à rua, adorado por todos, para as multidões todas ver.

O adoram de joelhos postos em terra, reconhecendo que debaixo das aparências eucarísticas, ali está Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi a política de enfrentar, de não conceder, de lutar, de afirmar, de proclamar.

Daí veio para a Igreja uma torrente de graças. Exatamente a Contra-Reforma, que representou uma das maiores chuvas de graça que a Igreja tem recebido.

Enquanto o protestantismo dura e a Igreja é católica em todo o seu conteúdo, essas respostas se acentuam.

No século XIX ainda, a proclamação da infalibilidade papal, do dogma da Imaculada Conceição. No século XX, o dogma da Assunção, etc.

Até que outros ventos sopraram. Vamos dizer a verdade de frente: há incontáveis católicos que já não têm mais a coerência de sua Fé, a pugnacidade, a integridade que caracteriza a instituição quando está viva.


Hino Ave Verum


A Igreja é imortal porque é divina. Mas a correspondência de seus filhos a Ela pode diminuir e a densidade de fé decair no espírito de muitos deles.

Na festa de Corpus Christi no dia de hoje vemos como a coragem de proclamar os dogmas diminuiu. E como, portanto, há uma diminuição da Fé, em incontáveis desses que se dizem católicos.

Em 1970, no Congresso Eucarístico de Brasília, segundo os jornais, compareceram menos de 50.000 pessoas.

No ano de 1943, em São Paulo foi realizado um Congresso Eucarístico que encheu o vale de Anhangabaú inteiro, desde a Praça das Bandeiras até a praça do Correio oito vezes mais, muito aproximadamente!

A comparação é verdadeira e oportuna para mostrar como é verdadeira a afirmação da Escritura de que viria um dia em que as verdades estariam diminuídas entre os filhos dos homens.

Não propriamente negadas, mas murchas, reduzidas, apoucadas, amesquinhadas entre os filhos dos homens.

Por isso devemos nos voltar, pela intercessão imerecida mas incessante de Nossa Senhora para conosco, para aumentar a vitalidade, a correspondência à Fé, a energia e a plenitude no crer, na intransigência e na combatividade da Fé na presencia real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.


Procissão de Corpus Christi, Friburgo, Suíça, 20.06.1956


A festa de Corpus Christi é a festa do Santíssimo Sacramento. Hoje só pode ser uma grande lição de combatividade.

Aprendamos essa lição, e procuremos ser cada vez mais combativos por amor a Nossa Senhora e por adoração ao Santíssimo Sacramento.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra proferida na quinta-feira 28.5.1970. Sem revisão do autor)


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Um comentário:

  1. Prezado Sr. Dufaur,
    Eu não entendi muito bem , porque o Sr se referiu ao Brasil !
    Os evangélicos cresceram aqui no Brasil ? é verdade!
    Porem , que eu saiba, não temos Igrejas Católicas dessacralizadas, coisa que vem acontecendo muito, principalmente na Europa.
    Temos Igrejas fechadas, isto sim, por falta de padres, porque somos um país muito grande!
    Quanto à chamada Ditadura, vou contar-lhe um acontecimento:
    Havia um frade em minha paróquia (I.S.Pedro que fica no bairro de Cavalcanti - Rio de Janeiro).
    Este frade foi enviado para uma paroquia no interior do Brasil.
    Numa luta armada entre comunistas(sim os comunistas queriam transformar o Brasil num pais comunista) e o Exercito, Os comunistas invadiram a paroquia de Frei Hildeberto, que os acolheu!
    Saiba o Senhor que o Exercito não invadiu a Igreja, pediu a Frei Hildeberto que os pusesse para fora, ao que ele respondeu que não podia expulsar ninguém da Casa de DEUS.
    Assim mesmo o Exercito não invadiu a Igreja, mas para força-los a sair fechou agua/ luz/ esgoto e esperou até que saíssem!
    Então a idéia que se tem da chamada Ditadura é de acordo com a analise de cada um!
    Será que se o fato fosse ao contrario os comunistas teriam respeitado a Igreja Católica?
    Bom dia,

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