sábado, 26 de julho de 2008

Entrevista ao reitor do santuário de Lourdes (fim)

Lourdes, procissão das velas, fundo santuário
Catolicismo — Para muitos peregrinos, o Reitor do Santuário está imerso num ambiente de milagres e de graças extraordinárias no seu dia-a-dia, pois tal é o cotidiano de Lourdes. O que pensar a respeito?
Pe. Zambelli — É verdade que o Reitor de Lourdes se banha constantemente num clima de oração, de fé e de grande fervor. É uma graça que manifesta a vitalidade da vida cristã no coração de tantos homens e mulheres. É também uma exigência para ser mais fiel à nossa missão e corresponder cada vez mais à nossa vocação de servir o Evangelho e a Igreja.

Catolicismo — Como informou V. Revma., vem aumentando o número de fiéis peregrinos, devido ao ano do Jubileu. Na qualidade de Reitor do Santuário, como é possível acolher essa imensa multidão de peregrinos?
Pe. Zambelli — Não é da responsabilidade do Santuário de Lourdes organizar a intendência relativa ao acolhimento dos milhões de peregrinos. Isso incumbe aos donos de hotéis da cidade, com os quais trabalhamos em harmonia. No que nos toca, estamos organizados para que todos os grupos sejam bem recebidos no Santuário neste Ano Jubilar. Tendo em vista a excepcional afluência, muitas celebrações litúrgicas deste ano serão realizadas ao ar livre.

Catolicismo — Muitos brasileiros gostariam de vir em peregrinação a Lourdes neste ano. Para aqueles que estão impossibilitados de empreender tal viagem, o que V. Revma. aconselharia? E para os que se dispõem a vir, que recomendações lhes daria?
Pe. Zambelli — Para todos os cristãos do mundo inteiro que não poderão viajar a Lourdes, por múltiplas razões pessoais ou materiais, é sempre possível unirem-se espiritualmente a este acontecimento do Jubileu pela oração invocando Nossa Senhora de Lourdes, em particular pela recitação do Rosário feita diante de uma reprodução da Gruta ou de uma imagem da Imaculada. Eles podem igualmente, graças aos meios de comunicação, acompanhar os acontecimentos que se desenrolam ao longo do ano jubilar no Santuário de Lourdes. Podem, por fim, recitar a oração do Jubileu ou a novena preparatória.

Catolicismo — O Cardeal Ivan Dias, Legado de Bento XVI, na homilia de abertura do Ano Jubilar, em 8 de dezembro de 2007, disse que Nossa Senhora está tecendo uma rede de filhos e de filhas para encetar uma batalha final contra o Maligno, para a vitória de Jesus Cristo. O que sugere essa frase especialmente?
Lourdes, procissão das velas, fundo de tela do santuárioPe. Zambelli — Todos já vimos, no início de um concerto, os músicos afinarem seus instrumentos. Esse gesto é absolutamente necessário, pois se executará mal uma sonata de Bach num violino mal afinado, ou um prelúdio de Chopin num piano desafinado. Do mesmo modo, um maestro sempre se assegura, antes do recital, de que cada um dos membros do coro esteja bem afinado, segundo o tom de seu registro. Em música, cumpre portanto afinar sempre os instrumentos e ajustar as vozes.
Este exemplo é de molde a nos fazer compreender melhor uma das missões da Virgem Maria. Toda sua vida foi dedicada ao pensamento de Deus e à procura de sua vontade, tornando-se a única criatura para a qual nós podemos nos voltar para reencontrar a harmonia daquilo que somos no cotidiano e o que Deus espera de nós. Tendo sua vida sido perfeitamente una, não existe nela nenhuma dissonância, nenhuma nota falsa, tudo ressoa de acordo com o som muito puro do Evangelho. É como eu compreendo seu reiterado apelo à “penitência”, quando de suas aparições em Lourdes. Sua insistência para que nos convertamos não é senão o eco fiel da pregação de São João Batista. Jesus não disse outra coisa quando começou sua missão: “Convertei-vos e crede na Boa Nova” (Mc 1,15).
Cumpre entretanto reconhecer que a maioria de nossos contemporâneos é alérgica a este apelo, porque a palavra “penitência” soa estranhamente a seus ouvidos. Eles ouvem “penitência” e traduzem: ascese, mortificação, austeridade, sacrifício. Ora, a Virgem Maria, em Lourdes, não empregou nenhuma dessas palavras. Se Ela escolheu a palavra “penitência”, é em razão de sua ressonância eminentemente evangélica. Perguntei-me então se haveria outra palavra que pudesse traduzir, sem o trair, o vocábulo “penitência”. Parece-me que “coerência” convém bem. Com efeito, o apelo à penitência é de fato um apelo à coerência. Em Lourdes, a Virgem Maria nos pede ter uma vida coerente com a nossa consciência, coerente com o nosso batismo, coerente com a nossa fé, coerente com o Evangelho.

Catolicismo — Na sua opinião, quais seriam os frutos mais importantes deste Ano Jubilar de Lourdes?
Pe. Zambelli — Espero que, por ocasião deste Ano Jubilar das Aparições da Virgem em Lourdes, cada um redescubra a atualidade de sua mensagem e de suas exigências espirituais, em razão da ressonância profundamente evangélica das palavras da Virgem Maria, e que este acontecimento eclesial produza frutos duráveis de santidade.


Acompanhe online o que está acontecendo agora na própria gruta de Lourdes pela Webcam do santuário. 


quinta-feira, 3 de julho de 2008

Reitor do Santuário de Lourdes concede entrevista para revista católica brasileira


Embora muito absorvido por intensa atividade neste Ano Jubilar de Lourdes, o Pe. Raymond Zambelli gentilmente concedeu oportuna entrevista à revista de cultura católica Catolicismo. O Pe. Zambelli nasceu em Trouville-sur-Mer, em 2 de junho de 1943, na região onde viveu Santa Teresinha do Menino Jesus –– Calvados, na Normandia (França). Após completar o seminário menor e o maior em Caen e Bayeux respectivamente, foi ordenado em 1967 na basílica de Santa Teresinha, em Lisieux. Tendo exercido diversas atividades pastorais e aprofundado seus estudos, em 1986 tornou-se capelão do Santuário de Lisieux. Desde 1992 até dezembro de 2001, foi reitor do mesmo santuário, tão conhecido pelos católicos do mundo inteiro. Escreveu vários livros sobre Santa Teresinha, entre os quais destacamos: Prier avec Thérèse de Lisieux; Lisieux parle de Thérèse; e Thérèse nous parle. Em 5 de maio de 2003, foi nomeado para o importante cargo de Reitor do famoso Santuário de Lourdes.

* * *

Catolicismo — Quando os peregrinos chegam ao Santuário de Lourdes, encontram uma organização calma, transparente, discreta, mas muito eficaz. Ninguém imagina a amplitude das ocupações e o trabalho que isso representa para o Reitor e seus colaboradores. V. Revma. poderia nos dizer uma palavra sobre essa tarefa, pelo menos em suas linhas gerais?

Pe. Zambelli — Quando se acolhe a cada ano mais de seis milhões de peregrinos vindos do mundo inteiro, é necessário que o Santuário esteja muito bem organizado. Deste ponto de vista, o Santuário de Lourdes adquiriu grande experiência e goza de boa reputação. Mais de 430 funcionários trabalham no Santuário, sem contar os padres, religiosos e religiosas, com os quais esse total ascende a 500 pessoas. Há, portanto, muitos serviços especializados na organização, gestão, contabilidade, comunicação, planificação dos grupos e recepção dos doentes. É claro que todas essas atividades são ligadas à vida pastoral e litúrgica do Santuário.

O Reitor é, pois, encarregado de coordenar todos os serviços, harmonizá-los, fazê-los trabalhar juntos, conservando constantemente o objetivo primordial do Santuário de Lourdes: a recepção dos peregrinos e a difusão fiel da Mensagem da Virgem. O Reitor é o representante permanente do Bispo de Tarbes e de Lourdes, o qual é o primeiro e último responsável pelo Santuário.
Catolicismo — O secretariado de V. Revma. impressionou-me pela simplicidade e acessibilidade. Nele colaboram também inúmeros voluntários — médicos, enfermeiras, padioleiros e outros — que trabalham no anonimato e desinteressadamente. Como são organizados? Que sentimentos os inspiram? Quantos são? De onde vêm?

Pe. Zambelli — O Santuário de Lourdes conta com mais de 200 mil voluntários especialmente dedicados ao serviço dos doentes. Esses voluntários pertencem à Hospitalidade Nossa Senhora de Lourdes, ou fazem parte das hospitalidades diocesanas ou de grandes organismos, tais como a U.N.I.T.A.L.S.I. ou o O.P.T.A.L., no que diz respeito à Itália. Eles vêm do mundo inteiro e consagram generosamente seu tempo ao serviço dos doentes e do Santuário ao longo de todo o ano.
Catolicismo — As comemorações do sesquicentenário de Lourdes aumentaram suas atividades? No quê?

Pe. Zambelli — Vimos nos preparando há dois anos para este Ano Jubilar do Sesquicentenário das Aparições da Virgem Maria a Bernadette. Comunicamo-nos muito, por todos os meios que a mídia nos oferece hoje. O povo de Deus correspondeu, pois constatamos no momento um aumento de mais de 60% no número dos peregrinos em relação ao ano anterior, o que nos faz prever uma freqüência da ordem de nove a dez milhões de peregrinos até o fim do Ano Jubilar.

Catolicismo — Quais são os sentimentos que mais o encorajam na sua missão?

Pe. Zambelli — É certamente uma graça ter sido escolhido para esta missão eclesiástica universal. Estou muito consciente disso, e peço todos os dias ao Espírito Santo conceder-me as luzes necessárias e a força suficiente para cumprir esta missão tão importante, com a ajuda da Virgem Maria e de Santa Bernadette.


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